Olhos que esticam: o perigo silencioso da visão das crianças

Metade da população mundial poderá ser míope até 2050 e quase um bilhão de pessoas terá miopia grave, condição que pode levar à cegueira. A oftalmopediatra Isabel Gazele, do Hospital de Olhos de Vitória, usa uma metáfora para explicar o risco: “É como uma camisa que estica demais. Quando o olho se alonga, as ‘costuras’ podem romper. Isso significa retina racha, descolamento, glaucoma ou catarata precoce”.

Durante décadas, a miopia foi vista como um simples erro de refração, facilmente corrigido com óculos. Hoje, especialistas alertam que essa visão está obsoleta. O olho míope que se alonga patologicamente aumenta o risco de complicações graves, e a Organização Mundial da Saúde já considera a miopia uma causa evitável de cegueira.

 

Fatores que aceleram a miopia

Genética é apenas parte da equação: filhos de pais míopes têm 30% mais chance de desenvolver a condição. O restante depende de hábitos diários e ambiente. Isabel Gazele explica que o tempo excessivo em frente a telas de celulares, tablets e computadores faz os olhos trabalharem apenas com visão próxima, estimulando o alongamento patológico.

“Não basta corrigir a visão. Precisamos educar pais e crianças, prevenir e retardar a progressão”, afirma a oftalmopediatra. Pesquisas mostram que duas horas diárias ao ar livre reduzem o risco de miopia grave, porque a luz natural estimula a dopamina na retina, molécula que limita o alongamento ocular.

Além disso, sono adequado, atividade física regular e alimentação equilibrada ajudam a reduzir inflamação e obesidade, fatores que aceleram a evolução da miopia.

 

Sinais de alerta para pais e professores

Observar comportamentos diários pode salvar a visão da criança. Entre os sinais mais comuns estão: dores de cabeça frequentes, esfregar ou apertar os olhos, desinteresse por atividades que exigem visão à distância e dificuldade de acompanhar o conteúdo da lousa. Isabel Gazele reforça que professores desempenham papel crucial: “A criança pode não se queixar, mas se não enxergar a lousa, isso já é um alerta”.

 

Avanços no tratamento

O tratamento da miopia evoluiu muito nos últimos anos. “Óculos comuns podem não ser suficientes. Hoje usamos lente de controle de progressão de miopia, ortoceratologia noturna e baixa dose de atropina para retardar o alongamento do olho”, explica Isabel. Cada criança recebe um plano individual, considerando idade, grau de miopia, ritmo de progressão e capacidade de adaptação.

A ortoceratologia, por exemplo, remodela temporariamente a córnea durante a noite e induz um embaçamento controlado na retina periférica, que desacelera o crescimento do olho. Lente de controle de progressão de miopia e baixa dose de atropina também são estratégias eficazes, seguras e cada vez mais utilizadas no Brasil.

 

Prevenção é o melhor caminho

Especialistas reforçam que pequenas mudanças diárias podem fazer grande diferença. Limitar o tempo de tela a uma hora por dia entre 2 e 10 anos, manter distância adequada das telas e fazer pausas frequentes ajuda a proteger a visão. Atividades ao ar livre, esportes e estímulos visuais variados complementam a prevenção.

“Quanto mais cedo detectarmos e atuarmos, melhor será a saúde ocular da criança no futuro. A miopia não é apenas sobre óculos: é sobre visão, aprendizado e qualidade de vida”, finaliza Isabel Gazele.

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